Te encontrei em um sonho esta noite. Um belo sonho, é verdade, tipicamente tingido de cores púrpuras envelhecidas, infestado de odores cítricos, com o mesmo aconchego que sempre me foi trazido ao teu encontro. Algo no sonho o mantinha extremamente lúdico, embora impressionantemente lúcido. Haviam objetos que pairavam sobre minha cabeça, como se me pedissem um toque de recolher, para que sumissem no espaço vago do som, do som dos meus gritos.
Havia em mim o mesmo leve desespero que sempre houve quando sentia teu cheiro, quando via teus lábios, quando olhava em teus olhos, o desespero de quem está prestes á ser engolido, consumido, dissipado. Mas havia em meu desespero um leve resquício de tranqüilidade, que me fazia confuso, algo feroz, que com toda coragem enfrentava o mar de desespero que lhe cobria, com plena certeza de que sairia vencedor. Era esta a guerra dentro de mim, a luta que era travada,que me fazia tolerar o leve veneno que de teu corpo exalava, era esta guerra, dentro de mim, que me sustentava.
Minhas mãos tremiam freneticamente, como se quisessem, teimosamente, por conta própria, tocar-te, possuir-te, talvez estrangular-te. Minha garganta pulsava, emaranhava-se em nós, que prendiam-me os gritos, transformando-os em lágrimas. As lágrimas afogavam, impiedosamente á menina dos meus olhos, tremiam-me as pálpebras, como num ponto sem volta, de onde eu não mais voltaria antes que a histeria de mim tomasse conta.
Havia algo de que me lembrava vagamente, algo que eu mesmo guardara ou esquecera, nas mais profundas reservas de sentimentos, ofuscadas pelo enorme, novato e cruel sentimento que agora me dominava. Algo me dizia que isso se chamava esperança, aquele sentimento quase mitológico, que tornava as coisas todas tolas e infundadas, aquele velho apoio no naufrágio que se tornara minha vida, aliás, minha sobrevida.
Não havia em minha frente nada, além da esperança, tão parecido com os lagos calmos e aprazíveis que eu vira nos filmes, durante minha infância. E agora, despido de toda a minha arrogância, eu agarrava-me ferozmente á esse porto, que me parecia inigualavelmente seguro.
Por um momento, tão breve como não se pode medir, lembrei-me em uma condensação intensa de informações, de algo sobre a esperança, algo eu fazia de tal sentimento ligado á um fundamento, que existia, embora muitos não percebessem. Talvez esse impulso que me levasse á tê-la, fosse realmente palpável, talvez existisse mesmo algo em que me apoiar.
Me sentia agora incrivelmente fortalecido, como se algo houvesse me absorvido, me absorvido antes mesmo do monstro feroz escondido em teus olhos, e o que eu sentia não era a velocidade de algo que me desse forças, mas sim a paralização de não sentir mais nada, de não posicionar-me em relação á nada.
Encontrava-me agora frente á frente ao monstro que me assolara, estava frente á frente á você. Seus olhos me iluminavam de uma forma que outrora seria estonteante, o odor que exalavas tomava-me conta. Nem de longe me afetava, algo em mim o refutava.
Mantinha-me ali, numa proximidade inimaginável, e não haviam motivos para correr, nem mesmo motivos para viver, mas eu vivia, e não, não corria.
Hoje dormi novamente, como não fazia há muito, sonharei novamente contigo, eu sei, estás em mim, não em meus sonhos.
Preciso imediatamente dormir, e ao teu lado, deixar de existir.