"Ama"

Quando tudo que suas lágrimas querem é um sorriso em que escoar

Quando você sente o cheiro de quem está ali tão presente quanto um abraço

Quando você sabe que tudo de belo foi feito para uma única pessoa

Quando você sabe que aqueles olhos são tudo o que você precisa

Você olha pro céu.

Você sente as gotas úmidas que acariciam seus lábios

E então você sabe que seria lindo aquele abraço em meio a ventania

E então você sabe que nada mais será tão belo quanto é com ela

E então você sabe que toda a sua trilha sonora contém ela

E então você sabe que cada pecado você repetiria apenas por mais um segundo segurando aquelas mãos

E então você sabe o quanto é indescritível mergulhar naquele olhar.

Você sabe que tudo o que você tem a dizer resume-se em uma única sentença.

E então você sabe que você ama.

Publicado em: às julho 5, 2008 em 5:00 am  Comentários (1)  

Sentindo.

Subitamente, mergulhado na marca devassa da púrpura cor que tange os céus

O fogo novamente bafora usuras nos meus lábios, que tingem-se levianamente de um carmin desavergonhado.

O sangue me sobe á face, manchando-me os olhos, em uma inundação de fel.

Dobram-se meus pulsos, incautos, paralelamente unidos aos dedos, na falha tentativa, de prender-me as mãos minha desesperada alma.

Curvo-me. Não somente de dor, mas á ela, inacreditavelmente digna de glória, filha da morte.

Anseio, ao mesmo e exato tempo que meus olhos prendem-se ao ultimo lampejo descarado de luz, e entrego-me ao vento, ao fogo, ao medo.

Sinto-me urbanamente preso, estranhamente, entre quatro paredes, dentro de minhas divagações, eu apenas vago.

Voam-me da mente palavras, agora involuntariamente pronunciadas, deixam-me na língua o gosto doce dos meus desejos – incontidos.

Dou passos, em direção ao vago que invade meu coração, mergulho na vida, que teimosa toma conta da minha razão. Olho-me no espelho, e vejo, o meu decréscimo, o meu algo-de-mim.

Imploro a chuva que molhe e varra meus desprezos, que leve meus clamores e grite por mim.

Publicado em: às fevereiro 25, 2008 em 2:21 am  Comentários (1)  

Se eu pudesse te sentir como te vejo

Tocar-te como meus olhos te tocam

Sentir-te como sinto teu cheiro

Haveriam muitos pecados

Dos quais eu meu orgulharia

Apenas porque eu queria poder respirar você

Apenas porque eu sei que teu cheiro está aqui.

E eu me mordo compulsivamente

Sem medo nem rancor

Mergulho no que de teu eu tenho

Sinto teu ofegar

e peço que não me deixes nem por um segundo

Porque tuas mãos estão aqui

E nelas eu posso tocar.

Abrace-me e eu sentirei que os ventos não me seguram mais aqui.

Publicado em: às dezembro 4, 2007 em 1:13 pm  Comentários (1)  

Um sonho tão real.

Te encontrei em um sonho esta noite. Um belo sonho, é verdade, tipicamente tingido de cores púrpuras envelhecidas, infestado de odores cítricos, com o mesmo aconchego que sempre me foi trazido ao teu encontro. Algo no sonho o mantinha extremamente lúdico, embora impressionantemente lúcido. Haviam objetos que pairavam sobre minha cabeça, como se me pedissem um toque de recolher, para que sumissem no espaço vago do som, do som dos meus gritos.

Havia em mim o mesmo leve desespero que sempre houve quando sentia teu cheiro, quando via teus lábios, quando olhava em teus olhos, o desespero de quem está prestes á ser engolido, consumido, dissipado. Mas havia em meu desespero um leve resquício de tranqüilidade, que me fazia confuso, algo feroz, que com toda coragem enfrentava o mar de desespero que lhe cobria, com plena certeza de que sairia vencedor. Era esta a guerra dentro de mim, a luta que era travada,que me fazia tolerar o leve veneno que de teu corpo exalava, era esta guerra, dentro de mim, que me sustentava.

Minhas mãos tremiam freneticamente, como se quisessem, teimosamente, por conta própria, tocar-te, possuir-te, talvez estrangular-te. Minha garganta pulsava, emaranhava-se em nós, que prendiam-me os gritos, transformando-os em lágrimas. As lágrimas afogavam, impiedosamente á menina dos meus olhos, tremiam-me as pálpebras, como num ponto sem volta, de onde eu não mais voltaria antes que a histeria de mim tomasse conta.

Havia algo de que me lembrava vagamente, algo que eu mesmo guardara ou esquecera, nas mais profundas reservas de sentimentos, ofuscadas pelo enorme, novato e cruel sentimento que agora me dominava. Algo me dizia que isso se chamava esperança, aquele sentimento quase mitológico, que tornava as coisas todas tolas e infundadas, aquele velho apoio no naufrágio que se tornara minha vida, aliás, minha sobrevida.

Não havia em minha frente nada, além da esperança, tão parecido com os lagos calmos e aprazíveis que eu vira nos filmes, durante minha infância. E agora, despido de toda a minha arrogância, eu agarrava-me ferozmente á esse porto, que me parecia inigualavelmente seguro.

Por um momento, tão breve como não se pode medir, lembrei-me em uma condensação intensa de informações, de algo sobre a esperança, algo eu fazia de tal sentimento ligado á um fundamento, que existia, embora muitos não percebessem. Talvez esse impulso que me levasse á tê-la, fosse realmente palpável, talvez existisse mesmo algo em que me apoiar.

Me sentia agora incrivelmente fortalecido, como se algo houvesse me absorvido, me absorvido antes mesmo do monstro feroz escondido em teus olhos, e o que eu sentia não era a velocidade de algo que me desse forças, mas sim a paralização de não sentir mais nada, de não posicionar-me em relação á nada.

Encontrava-me agora frente á frente ao monstro que me assolara, estava frente á frente á você. Seus olhos me iluminavam de uma forma que outrora seria estonteante, o odor que exalavas tomava-me conta. Nem de longe me afetava, algo em mim o refutava.

Mantinha-me ali, numa proximidade inimaginável, e não haviam motivos para correr, nem mesmo motivos para viver, mas eu vivia, e não, não corria.
Hoje dormi novamente, como não fazia há muito, sonharei novamente contigo, eu sei, estás em mim, não em meus sonhos.

Preciso imediatamente dormir, e ao teu lado, deixar de existir.

Publicado em: às novembro 24, 2007 em 8:21 pm  Comentários (1)  

Nem tão simples assim, não.

E se forem meus pecados os meus defeitos?

E se forem minhas palavras o meu suicídio, serão meus defeitos os pecados.

Minha complascência existe aonde o vento corre, aonde as dores escorrem, aonde os teus gritos não se ouvem.

Se eu cansar de gritar, talvez você me ouça.

Talvez eu possa agressivamente te acalmar.

Não quero perdoar, não quero pensar.

Quero apenas vomitar, vomitar minhas cláusulas.

Afaste de mim tudo o que se pode tocar, meu toque não mais agracia.

Irracionalmente talvez minha racionalidade volte outra vez.

Pra onde você olha?

Não há nada na janela, apenas pássaros, sol e um lindo dia.

Isso tudo não passa de rompância, não lhes dei permissão.

Não anime-se com tantas ofertas, são elas todas lixo.

Não sentir é o melhor que se pode sentir.

Experimentei a dor, e gostei.

Experimentei não experimentar, e sumi.

Publicado em: às outubro 10, 2007 em 7:46 pm  Comentários (1)  

Simples assim, sim.

Parado na música eu queria um pouco de certeza

Um pouco de indiferença

Um pouco de algo que me fizesse desacreditar

Não, nunca fiquei sem minha básica arrogância

Levantarei sim

E olharei pra onde você nem vai imaginar

Dependência é temporária

E se teu sorriso não é meu por direito

Será de alguém

Sou egoísta, bem mais que você

Roubo sorrisos que não me pertencem

Se tuas lágrimas não caem, é porque esperam o tempo necessário

Não, não existem barreiras

Só eu sei

Só eu

Só eu

Se meus muros são os maiores, eu sou o mais alto

Se sou o mais alto, não será tua decadência a minha dependência

Não, não é que não sejam tuas palavras doces como antes

Mas compreenda, eu me acostumei com o amargo

Prefiro o ácido, ele me queima, o doce me tortura.

O meu desabafo é medíocre, talvez seja necessário aguardar o renascimento.

Publicado em: às outubro 10, 2007 em 7:46 pm  Deixe um comentário  

Audível palavra.

Meu olhar insiste em percorrer janelas e prédios, em busca de rostos e histórias, fatos e relatos, verdades e boatos. Houveram dias em que minha análise deixava-se distrair por analogias criticamente instáveis que insistiam em sussurar usuras em meus ouvidos. Porém, agora, ultimamente, me vem novamente á garganta á mesma ânsia ácida e enjoativa de sempre, a de calar-se para não gritar.

Eu então em meio á tamanho desânimo, passo os dedos pelos cabelos, pelos olhos, pelas teclas. Minha mente, quase antipática, recusa-se á dar-me nem sequer uma letra, uma dica, um bocejo.

As palavras se mantêm em constante “gargarejo”, mergulhadas nas incertezas mais presentes que meu corpo. Permaneço calado, extasiado, constipado, envolto nas tantas melodias irritantes e desconcertantes que me cercam.

O raciocínio costumeiro já me é de forma quase paradoxal, um estranho visitante apressado, que nem bem me cumprimenta e se vai. Eu olho as paredes, tingidas de tanta falsidade, de tantas não pensadas frases, talvez roubadas, talvez extintas.

As vozes em minha cabeça se tornam incessantes, corrompedoras e incansavelmente gritantes. Meu olhar vaga entre minhas loucuras certamente incorretas, eu temo, eu choro, eu penso.

Meus pensamentos se extinguem, se vão, fogem de meus dedos, que brava e covardemente os perseguem, os necessitam.

Minhas mãos insistem por mais um bocejo, por mais um gargarejo, por mais uma vaga idéia, por mais um momento de completo vazio. Meus dedos então começam, de forma indescritível á descrever todas as angústias de em meio á tantas palavras, não ter, de forma alguma, o que escrever, nem mesmo o que dizer.

Talvez agora eu tenha que mergulhar nas minhas insatisfações, para cumprir minhas obrigações nada obrigatórias. Talvez agora, se me faltam memórias, eu tenha, que forçosamente,de forma quase aleatória, contar ou inventar histórias.

O que me ocorre? De quem eu corro?

Talvez do medo de calar-me, de silenciar minha amarga mente no meio de barulhos metálicos estridentes. Persigo meu olhar, que insiste em desviar, persigo minha insanidade, persigo minha obscuridade.

Sinto os golpes que eu mesmo me dou, sinto os ventos que ele mesmo, meu corpo, gerou.

Sinto o frio de não se ver o horizonte, sinto a certeza, das palavras.

As palavras agora me chegam, de forma quase nefasta, sussurrando em meus ouvidos aquilo tudo que eu sempre quis ouvir, que eu teimosamente insisti em pedir.

Eu ouço agora, o meu próprio silêncio.

Publicado em: às agosto 4, 2007 em 4:25 pm  Deixe um comentário  

Como o vento que dobra as esquinas.

Como a luz que se esconde na sombra.

Como o sangue que escorre sutilmente.

Como os passos que anunciam a ausência.

Delicada flor morta que ornamenta as sombras.

Intercalados cinzas que colorem.

O nada que beija o tudo.

O encontro entre uma alma nefasta eu um peito induto.

Ela.

Ela não mais é o que se enxerga.

Ela é o que se sente.

Ela, tão ingrata imagem que pune os olhos atentos á sua beleza.

Dá-me bela maldita a chance de tocar tua morte.

A morte tão viva que te cobre.

Permite-me teus olhos invadir.

Tua alma discernir.

Permite-me, donzela, ver teus olhos como vejo o nada.

Ver teus olhos como vejo que ninguém mais vê.

Ver teus olhos como vejo o sol desaparecer.

Ver teus olhos como vejo a lua nascer.

E ilumina com tua sombra a tristeza que se estende.

Ilumina com a tua sombra essa sensação ausente.

Publicado em: às março 20, 2007 em 8:32 pm  Comentários (1)  

Martírio.

Sobe dos esgotos

Dos esgotos direto pra minha garganta

A dor que me esmaga

A dor que me abafa

A ânsia que me arrasta

O grito que se prende

O grito que urra no meu peito

As lágrimas são presidiárias de minha alma

Os sons retinem em meus ouvidos

Os ventos me secam os olhos

Olhos vidrados

Petrificados

Minhas mãos lixam a pele que ainda me resta

Eu grito, eu choro, eu suplico

Peço por ajuda de quem ouvir

De quem ouvir as minhs lamúrias

As lamúrias que vão tingir as calçadas

O sangue escorre ainda

Eu ainda esvaio na dor que me toma conta

Que toma conta da minha razão

A dor por não viver segundo o som que me embala

A dor por não ser o que no fundo eu sou

A dor por viver preso dentro de minhas próprias ilusões.

Publicado em: às março 20, 2007 em 12:16 am  Comentários (1)  

A orquestra.

O vento sopra na janela, tão leve e caloroso. As folhas se arrastam até a próxima esquina, tão mortas, tão rompantes. O céu está azul, mais azul que o mar.

O horizonte não é mais uma linha, as cores se misturam, as ondas mancham o céu. Nas ruas, tão ásperas e quentes, arrastam-se vestidos, esfarrapados. Os saltos se ralam, como uma marcha, rumo ao nada, com ritmo, embalo.

Os cabelos levantam-se diante de tamanha magnitude, e mancham o céu, ainda azul, sem mais cores. Os fios de cabelo, tão finos ou tão grossos, derramam-se no vento, como gotas de tinta, são manchas.

Os pássaros estão todos pondo-se em postes, galhos e prédios, como que protestando contra suas próprias asas, não querem mais voar. Deixam-se levar pelo vento, agora denso, cinza.

C0mo que instantaneamente, ouvem-se passos, cada vez mais apressados, tocando o solo, fazendo o vibrar. Portões são abertos, quase que no mesmo momento, seus ruídos jogam-se no vento.

Chaves sacodem-se, como sinos, misturados aos latidos incessantes de cães.

As sirenes começam a soar, os portões começam a abrir-se, as crianças começam a sair, correndo, rindo.

Sente-se gelo no rosto, em meio a correntes quentes de vapor.

O céu agora cinge-se de um vermelho rosadamente alaranjado, cortado por raios de luz, misturando-se ao azul costumeiro. De repente, rapidamente, tudo se torna cinza, escuro, uma grande massa cinzenta cobre o vermelho, que luta para ser visto.

Os últimos raios são então cobertos, os ventos sopram cada vez com mais força, e uivam como lobos, dobrando as esquinas de pedra.

Janelas ainda se batem, rompantes em meio a tamanha sinfonia.

Esse é o momento, é agora. Os vestidos arrastam-se, saltos ralam-se, cabelos levantam-se, asas congelam, passos, portões se abrem, chaves se ouvem, crianças correm, o cinza aproxima-se, janelas batem.

É então que o primeiro pingo chega ao solo, após sua longa jornada desde o céu, e quando o faz, é como se tudo parasse instantaneamente, a poeira de seu impacto ergue-se, e o próximo o sucede, e o outro…

Agora a única coisa que se ouve é o estrondo da chegada de tal exército que desce as ladeiras, entra nos bueiros, lava o que vem na frente.

Todos olham em silêncio a grande orquestra que se finda, com um som deveras abrasador, tão forte, tão doce, tão caloroso.

Publicado em: às janeiro 13, 2007 em 11:17 am  Comentários (3)  
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